Folia da ditadura

Por: Marcos Espínola

A cada carnaval nos deparamos com inovações que nos fazem distanciar cada vez mais da essência dos carnavais de rua, especialmente no Rio de Janeiro. As marchinhas, as fantasias originais, as brincadeiras em família num clima quase ingênuo. 

Hoje, nos deparamos com a violência e os excessos que vão desde o consumo de álcool e outras drogas, passando pela permissividade e sexualidade desacerbada, até a ostentação que chegou às escolas de samba que promovem o maior carnaval do planeta. Uma ditadura imposta já há alguns anos, no qual o luxo e a riqueza se tornaram a prioridade.
Sabemos que o progresso nos traz um pouco de tudo. 

No entanto, é perceptível que em vários segmentos a evolução trouxe inovações que fez com que se perdesse o foco da origem, da razão de ser. E tem sido assim no carnaval das últimas décadas, no qual a comunidade, o samba no pé e a empolgação das agremiações deram passagem para fantasias cada vez mais pesadas e repleta de acessórios que impedem o sambar. A animação dos componentes perde a atenção do público quando as alegorias de led e animações pirotécnicas entram na avenida.

O carnaval de hoje não é mais para o povo, para a comunidade humilde usufruir e curtir depois de um ano de duro trabalho no barracão. Ficou praticamente restrito a um grupo de alto poder aquisitivo e de celebridades que assiste aos desfiles nos camarotes e frisas, tendo a melhor fatia da festa. E o povo, os poucos que conseguem o acesso, se espreme nas arquibancadas, expostos ao tempo, à chuva. Um dos maiores cantores e intérpretes brasileiros, Zé Ramalho, relatou muito bem isso na canção “Cidadão”, do compositor Lúcio Barbosa. Nela é contada a história de um operário que ajudou a levantar prédios, construir escolas e igrejas, mas em todos esses lugares é impedido de entrar.

Com patrocínio de um ditador africano, a Beija-Flor venceu e ratificou que o carnaval virou uma indústria, no qual a ética, moral e bom senso não são considerados na avaliação da origem do dinheiro. Pouco importa se na Guiné Equatorial mais de 75% da população vive abaixo da linha da pobreza, pois o importante foi o espetáculo.

Qualquer semelhança é mera coincidência (ou não) com a nossa realidade. Pouco nos importamos que cerca de 20 milhões de brasileiros ainda vivem em pobreza extrema, sem acesso ao saneamento básico, à saúde e educação de qualidade. Não estamos atentos que na própria cidade maravilhosa, palco do evento, ainda nos deparamos com carências básicas, pois o show não pode parar. A folia é ditatorial.
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Artigo do Advogado Marcos Espínola

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